Delegado Espinosa, um personagem absolutamente fascinante. Espinosa é o titular da 12ª Delegacia de Polícia do Rio de Janeiro, que fica na Hilário de Gouveia, por uma grande coincidência diante do prédio em que moraram meus sobrinhos Valéria, Carlos Alberto, Cláudia e Marcelo, mas isso é só uma coincidência, não tem nada a ver com a história.
A Hilário de Gouveia é paralela bem próxima à Siqueira Campos, que, por sua vez, fica bem pertinho do Bairro Peixoto. De sua casa no Bairro Peixoto até a delegacia, na Hilário de Gouveia, o delegado Espinosa não levaria mais de dez minutos a pé. O problema, claro, é o calor.
As ruas de Copacabana e do Bairro Peixoto são sempre citadas nas histórias do delegado Espinosa.
Meu amigo Anélio Barreto escreveu no Estadão em 27 de janeiro de 2008:
“O delegado Espinosa está sentado lá, naquele banco de madeira em que se escondeu do sol, na Praça Edmundo Bittencourt – que todos chamam simplesmente ‘A Praça’ – no Bairro Peixoto, em Copacabana, Rio de Janeiro. Vive ali desde os nove, dez anos de idade, e jogou na quadra de futebol de salão em que outros garotos correm agora, nesta pérola que é o Peixoto ainda hoje, mas que brilhava mais décadas atrás, quando um grande bambuzal ainda germinava em um de seus cantos. Foi onde Espinosa conheceu Hugo Breno, um ano mais novo, e com quem brincou, embora recentemente tivesse que fazer esforço para lembrar-se dele.”
Anélio, assim como Sandro Vaia, Moisés Rabinovici, José Eduardo Borgonovi, o Castor, Gilberto Mansur, Humberto Werneck, Carlos Brickman, Sérgio Rondino, Bill Duncan (e assim como eu também, que cheguei depois de todos eles), era apaixonado pelo new journalism de Truman Capote, Tom Wolfe e, sobretudo, Gay Talese, e abriu dessa maneira literária seu texto intitulado “Com Espinosa, no Peixoto”. No segundo parágrafo da reportagem, ele explica:
“Os leitores já perceberam: o delegado Espinosa é criação do escritor Luiz Alfredo Garcia-Roza, e está em sete aventuras nos sete livros de que é personagem, o mais recente deles o ‘Na Multidão’, lançado em novembro pela Companhia das Letras, e que poucos dias depois teve esgotada sua primeira edição, de dez mil exemplares. Companheiro na adolescência, Hugo Breno reaparece nesse volume. Garcia-Roza já foi editado nos Estados Unidos, Inglaterra, França, Itália, Espanha, Alemanha, Rússia, Grécia e Portugal, e está em vias de ser lançado na Dinamarca.”
Editor de imenso talento, Anélio Barreto sabe ser bom repórter: quando viajou ao Rio para entrevistar Luiz Alfredo Garcia-Roza, na ocasião do lançamento do sétimo livro com as aventuras do delegado Espinosa, fez questão de entrevistar o autor na Praça do Bairro Peixoto.
Para o jornalista Anélio Barreto, que tinha viajado de São Paulo para entrevistá-lo, ali, na Praça do Peixoto, em A Praça, onde me sentei feliz, Luiz Alfredo Garcia-Roza contou:
“Passei toda a minha infância em Copacabana. Meninos, eu e meus amigos vínhamos andando de bicicleta até aqui, que era um local maravilhoso, ainda não urbanizado, era uma grande área natural e a gente andava de bicicleta por tudo, o que me deu uma grande intimidade com o lugar, não só a praça, mas todo o entorno. Então eu escolhi o Bairro Peixoto como moradia do Espinosa. Eu já havia decidido que ele seria um personagem que iria atravessar vários livros – claro, isso se o segundo, o terceiro, fossem publicados, mas eu já tinha um certo otimismo em relação a ele. E achei que este seria um bom local para ele habitar.”
Datas, por favor.
A doação da chácara do Comendador Peixoto às cinco instituições de caridade se deu em 1938. Garcia-Roza, nascido em 1936, diz que durante sua infância a área ainda não era urbanizada. Em 1946, aquilo ali ainda era natureza – exatamente como era natureza pura, intocada, a região ao Norte da Rua dos Dominicanos, em que eu brincava quando criança em Belo Horizonte, e hoje é bairro de rico.
Eva Dias Ferreira, a mulher do militar Kleber Weber Ferreira, no romance de Nelson Motta, resolveu comprar um apartamento no terceiro andar de um prédio recém-construído no Peixoto no início dos anos 50.
Tudo bate. Os predinhos que estão lá – lindos, maravilhosos – são todos do finzinho dos anos 40, início dos anos 50. Têm exatamente a minha idade.
Mas devo dizer que estão bem mais conservados.
Sentado na Praça em que Anélio entrevistou o delegado Espinosa, quer dizer, o criador do delegado, o escritor e psicanalista Luiz Alfredo Garcia-Roza, li alguns capítulos de O Manipulador, o John Grisham de 2012. Me senti esquisito, no meio do Bairro Peixoto, lendo uma história tão distante de nós todos. Acho que deveria ter levado pra lá um dos livros de Garcia-Roza.
O delegado Espinosa é do Peixoto, mas trabalha fora dos limites do pequenino bairro. Já praticamente toda a ação de Ao Som do Mar e à Luz do Céu Profundo se passa ali mesmo, nas pouquíssimas quadras que formam o bairro.
Jamais vou conseguir entender por que Nelson Motta não é um escritor de absoluto sucesso, de nome sempre presente na lista dos livros mais vendidos.
Os livros de Nelsinho Motta são absolutamente deliciosos. Eu já tinha lido o maravilhoso O Canto da Sereia (copyright 2002) quando me deparei com Ao Som do Mar e à Luz do Céu Profundo (copyright 2006).
Ao Som do Mar.. é um livro sensacional, excepcional. É improvável, inadmissível, louco, inteiramente louco que ele não tenha vendido feito água, não tenha virado minissérie da Globo, filme, o escambau.
Passa-se, todinho, todinho, no Bairro Peixoto.
Eis por que digo que, ao conhecer finalmente o Bairro Peixoto, estava ao mesmo tempo pisando pela primeira vez no lugar, e pisando num lugar há muito conhecido.
