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Visitei o Bairro Peixoto

Visitei o Bairro Peixoto

Depois de passear um tanto pelo Bairro Peixoto, e de fazer uma série grande de fotos de seus belos predinhos de três e quatro andares, construídos ali entre o finalzinho dos anos 1940 e 1950, me sentei num banco de madeira da Praça.

Saber sobre um lugar por ter lido, ter visto filmes, ter ouvido relatos de outras pessoas é uma coisa. Estar lá, naquele lugar, com todos os seus sentidos abertos (e será que eles são só cinco?), é outra coisa inteiramente diferente.

Me lembro, por exemplo, do momento em que, passeando pela Île de St. Louis, no meio do Sena, ouvi o som de um acordeon. Me senti ouvindo, ao vivo e a cores, o som de Paris, o verdadeiro som de Paris. Não tem nada a ver com ver imagens, fotos. É completamente diferente. A realidade emociona, arrepia, tira o fôlego.

Na Praça, você ouve a música das vozes das crianças. E não ouve o zumbido intenso de trânsito pesado, porque ali não há trânsito pesado algum.

Há gente de todas as idades. Há velhos e não tão velhos sentados nas mesas de pedra jogando cartas ou dominó. Há jovens adolescentes andando de bicicleta. Há adolescentes grandões andando em grupo. Mas, sobretudo – pelo menos num final de tarde de uma terça-feira de março –, há crianças, com suas babás e/ou com suas mães.

Fiquei olhando. É absolutamente technicolor. Há todos os tipos de cor de cabelo, de pele. Não há predominância de tom algum – há cabelo louro, castanho claro, castanho escuro, negro liso, negro pixaim. Mary, com sua capacidade de síntese, resumiria, algum tempo depois de andar por lá (ela chegou depois de mim): “Parece que aqui ainda não chegaram o Lula e as cotas”.

É bem verdade: o Bairro Peixoto, microcosmo do Brasil, é um lugar em que não há maioria/minoria de cor – há tudo quanto é tipo de cinza entre o branco e o negro. Somos miscigenados, somos tudo misturados. Aqui, felizmente, não tem raça pura, nem impura – bem, pelo menos não tinha, até 12 anos atrás, quando começaram a racializar tudo.

Como agora sou avô, fiquei olhando as crianças – dezenas e dezenas de crianças na Praça. Parte delas com as mães, parte delas com babás. O Bairro Peixoto era, no início, pelo que sei, classe média média. Hoje, é um misto de classe média média com um tanto de classe média quase alta.

(E aqui, ao escrever essa frase, me ocorre que a Marilena Chauí, com seu profundo ódio pela classe média, se pudesse jogaria uma bomba atômica sobre o Bairro Peixoto,)

Babás e mães, pelo que observei, não são pânicas: o Bairro Peixoto não é inseguro, de forma alguma, e a Praça é imensa. Vi babás e mães se distraindo, conversando com amigas e ao celular, enquanto as crianças se distanciavam. Mas logo elas percebiam, iam atrás, enquadravam os garotos. Tudo numa boa.

Isso me passou uma sensação fantástica: mães e babás são cuidadosas, mas de forma alguma são pânicas. Sentem segurança. Sentem que podem ficar alguns segundos sem estar juntinho das crianças – não há perigo.

O motorista de táxi que trouxe Mary da Rua Irineu Marinho até a Praça Edmundo Bittencourt, ou simplesmente A Praça, disse para ela que o Bairro Peixoto é muito seguro porque os PMs do Batalhão cuja sede fica ali pertinho, junto da Figueiredo Magalhães, chegam bem cedo e estacionam seus carros nas ruas do Peixoto. E ladrão não é besta de querer roubar carro de PM – então não há ladrões rondando as poucas ruas do Peixoto.

É uma bela hipótese, uma boa teoria.

Olhei ali para aquelas crianças todas e pensei em Marina. Se a gente morasse no Rio, eu levaria Marina para A Praça – e a deixaria livre leve solta, olhando, é claro, mas tranquilo, seguro. Numa boa.

Ah, e se por acaso Marina desse um pique e caísse de cara no chão, não seria tão grave: o chão da Praça é de terra – como nas praças de Paris. Não é de concreto, não.